Resgatando McLuhan


Livro com entrevistas e conferências é um resgate do trabalho e uma excelente introdução à obra do pai da aldeia global. Em uma das cenas mais hilariantes do filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Woody Allen está com Diane Keaton numa fila de cinema e logo atrás deles um chato dispara a falar em voz alta (já notaram que em fila de cinema tem sempre um chato falando em voz alta?) sobre diversos assuntos – dos quais, o personagem de Woody Allen faz questão de avisar à platéia, o sujeito não entende nada. O auge da cena é quando o sujeito desata a falar sobre a obra de McLuhan: aí Woody não agüenta e corrige o camarada, que imediatamente retruca: “Eu sou professor de Comunicação, portanto acho que sei do que estou falando.” Woody Allen não perde a pose: dirige-se até o extremo da tela (quase fora do alcance da câmera) e traz consigo o próprio McLuhan, que diz que, de fato, o tal professor é um cretino e não sabe do que está falando. Por essas e outras, o professor canadense Marshall McLuhan foi duramente criticado no meio acadêmico. Até hoje, passados 30 anos (e 25 anos de sua morte), apesar de quase toda sua obra ter sido publicada no Brasil, McLuhan andava meio esquecido. Criador do conceito de “aldeia global” e o primeiro acadêmico a estudar a fundo o impacto dos meios de comunicação de massa sobre as pessoas, McLuhan não era incoerente: gostava de aparecer sempre que possível no rádio e na TV (os meios de comunicação de massa de sua época, os anos 1960-1970 – por ironia do destino, a web só foi criada uma década depois de sua morte) para discutir os aspectos positivos – e até mesmo os negativos – da comunicação global. Grande parte das entrevistas que ele concedeu às mídias eletrônicas foi recolhida em livro e finalmente publicada no Brasil. McLuhan por McLuhan – entrevistas e conferências inéditas do profeta da globalização (Ediouro) é um documento importante para estudantes de Comunicação, profissionais do ramo e até mesmo para quem não trabalha na área mas quer entender um pouco melhor o mundo em que vivemos hoje. O título em português, embora bem diferente do original (Understanding Me, “Compreendendo a mim”, um trocadilho com seu livro mais famoso, Understanding Media, que aqui saiu como Os meios de comunicação como extensões do homem, numa excelente tradução de Décio Pignatari), é mesmo assim adequado. Afinal, McLuhan de fato meio que profetizou uma sociedade totalmente interligada pelas mídias eletrônicas, e, numa entrevista concedida em 1966, teorizou que no futuro próximo cada pessoa teria a possibilidade de receber em casa seu próprio jornal, revista ou livro, de maneira personalizada: a única diferença com relação ao conceito que hoje conhecemos como “impressão sob demanda” é que McLuhan dizia que as pessoas ligariam para um serviço especializado, que se encarregaria de xerocar, encadernar e enviar prontamente o material para a casa da pessoa. Não é um erro chamá-lo de profeta: cada um luta com as armas de que dispõe, e a tecnologia na época em que McLuhan disse isso ainda não dispunha das facilidades digitais que a internet nos ofereceria anos depois. Mas o conceito era exatamente o mesmo. Nas dezenove entrevistas há de tudo um pouco: educação à distância, cibernética, o futuro da arte na era eletrônica e até mesmo uma discussão bastante interessante (e muito anterior a Domenico de Masi) sobre a ética do trabalho na era digital. McLuhan também é, por assim dizer, o pai do teletrabalho e das redes colaborativas. Alguns tópicos se repetem ao longo do livro, e os leitores mais apressados podem sentir vontade de pular as páginas para chegar logo “ao que interessa”. Mas eu não recomendaria isso: em se tratando de McLuhan, tudo interessa, e as repetições (propositadamente incluídas no corpo do livro, por se tratarem de transcrições, cuja edição poderia truncar o texto e dificultar a compreensão) são um incentivo a mais para quem nunca leu McLuhan ou para quem não o lê há muito tempo. McLuhan por McLuhan é um mais que bem-vindo resgate do trabalho (e uma excelente introdução à obra) do pai da aldeia global. Fonte FERNANDES, Fábio. Resgatando McLuhan.

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